Autismo nível 1 em adultos: quando traço não é transtorno
Nos últimos anos, cresceu muito o número de adolescentes e adultos que recebem o diagnóstico de autismo nível 1. Parte desses diagnósticos está correta e representa um avanço no reconhecimento de pessoas que passaram a vida sem explicação para suas dificuldades. Mas há uma questão cada vez mais discutida na literatura científica: muitas dessas pessoas podem ter traços autísticos sem ter, de fato, o transtorno do espectro autista.
Traços como rigidez, dificuldade social, interesses muito intensos, particularidades sensoriais e menor espontaneidade na interação existem de forma contínua na população. Podem estar presentes em pessoas que não preenchem critérios para autismo, o que a literatura chama de fenótipo ampliado do autismo. Ter traços não é o mesmo que ter autismo, e confundir as duas coisas é transformar traço em diagnóstico.
Questionários e escalas, como o QA (quociente autístico) e o RAADS-R, são ferramentas de rastreio, não de diagnóstico. Uma pontuação alta, seja num instrumento especializado, seja num teste de internet, não confirma autismo. Também não basta a pessoa se identificar com relatos que circulam nas redes sociais.
O diagnóstico exige uma avaliação clínica cuidadosa. Ela inclui a história do neurodesenvolvimento, já que o autismo não começa na vida adulta, e a presença de sinais desde fases precoces da vida, ainda que discretos ou compensados ao longo dos anos. Exige também a avaliação do conjunto dos sintomas, e não de um ou dois traços isolados, além da presença de prejuízo funcional. Um ponto merece atenção especial: estratégias de compensação social, conhecidas como camuflagem ou mascaramento, existem, mas precisam fazer sentido dentro de uma história clínica coerente.
Quanto mais leve o quadro, mais importante é o diagnóstico diferencial. TDAH, ansiedade social, TOC, depressão, transtornos de personalidade e altas habilidades podem produzir características muito semelhantes às do autismo. Um diagnóstico equivocado não ajuda ninguém: nem quem realmente é autista, nem quem tem outra condição e precisa de um tratamento diferente.
Também é importante saber que o diagnóstico de autismo não é necessariamente definitivo. O próprio DSM-5 exige a presença de prejuízo clinicamente significativo no momento atual. Uma revisão da Cochrane, de 2022, mostrou que cerca de 92% das crianças diagnosticadas antes dos seis anos mantinham os critérios na reavaliação feita anos depois, e que aproximadamente 8% deixavam de preenchê-los.
Esse debate ganhou força em 2026, quando Uta Frith, uma das pesquisadoras mais importantes da história do autismo, publicou um artigo questionando se o conceito de espectro se ampliou a ponto de perder seu significado e favorecer erros diagnósticos. A pergunta é legítima: faz sentido reunir sob o mesmo diagnóstico pessoas com deficiência intelectual grave e necessidade de suporte muito elevado e adultos independentes, com carreira e família, que só identificam alguns traços na vida adulta?
Por isso, a avaliação de autismo em adolescentes e adultos exige tempo, experiência e, muitas vezes, uma investigação detalhada da infância. Mais do que dar um nome, o objetivo do diagnóstico é compreender o que realmente explica o funcionamento de cada pessoa, para que ela receba o cuidado de que de fato precisa.